Candeias
Eu ainda não sei seu nome.
Quando ela apareceu pela primeira vez, me deixou um recado tão claro que não foi necessário argumentar. Veio sem aviso, em local apropriado, mas sem aviso prévio.
Ela disse, há quase 5 anos, que o homem não sabe brincar de Deus. Me pediu para agradecer o poder da medicina e levou embora as dores daquele espaço, enquanto meu corpo fraco só conseguia tremer e estalar os dedos das mãos. Só percebi que ela foi embora quando vi uma mulher segurando um galho de arruda atrás de mim.
Ontem não, ontem foi diferente.
Maria do Cangaço me disse que, se ela não tivesse aparecido, a gente teria que fazer outro tipo de descarrego.
Mas, quando me percebi, já estava vestida de branco com a perna bamba, sem a terceira perna de Clarice, só eu e ela. Ela chegou e Maria do Cangaço me pediu firmeza. Firmeza no ponto de chamada, firmeza no joelho e firmeza no ori.
Tive firmeza, deixei você chegar e ocupar o meu corpo com sua dança e seu gingado. Rodei no xirê, dancei no xirê.
Mas você foi embora e me deixou um cigarro de palha e ombros novos.
Eu sei que a gente vai confiar uma na outra um dia. Eu te conheço, você também confia em mim. Eu sei todas as vezes que você esteve perto e confio na sua onipresença.
Obrigada, Maria, por me lembrar que eu tenho essa intuição e que ela se apresenta de várias maneiras.
Hoje eu compro o côco verde, o mel e o dendê. A fita amarela devo ter por aqui. Ora Ye Ye Ô, minha mãe. Na primeira lua, eu escrevo o que já deu certo e deixo no coqueiro mais bonito que já vi nessa cidade. Essa tecnologia nunca falha.
Adorei as almas! Saravá a todos os baianos!
Que Nossa Senhora das Candeias ilumine nossos caminhos,
protegendo nosso trabalho, nosso lar, nossos familiares e amigos.
Obrigada, acho que já sei seu nome.



